quinta-feira, dezembro 08, 2005

Epílogo

O Eduardo começou pelo fim. Eu não o vou contrariar e faço o mesmo!

Quando um dia eu descer à cova escura,
Para subir, ou não, à eternidade,
Não quero um lamento de amargura,
Daqueles a quem eu deixar saudade.

Quando eu pousar à fria sepultura,
Que aqueles que me amaram de verdade
Entoem, bravamente e em grande altura,
Um hino que cante alto essa amizade!

Que gritem o amor que, em facho ardente,
Pousou na dura tumba do meu peito
(E aqui ficou pousado, eternamente);

Que cantem, mesmo os que não têm jeito,
Aqueles que me amaram bravamente,
Quando eu adormecer no eterno leito!

Nesse dia, ao pousar eternamente
Esta minha alma em espaço definido,
Rasguem-se em pranto os olhos dessa gente
(Os que na vida tanto me hão traído);

Que nessa hora o povo seja crente
Que eu só queria ser amado e não ferido,
Chore, pois, nessa hora, amargamente
Enquanto não se houver arrependido!

Desses que tanta vez me hão negado
O carinho e a amizade que eu pedi,
Não ficarei esquecido, nem magoado;

Dos que, nas horas duras que vivi,
Amargamente tanto hei falado,
Deus os perdoe, como eu os redimi!

E, aqueles a quem, bruto, hei magoado
Nas horas mais difíceis de tragar,
Como mendigo peço, ajoelhado,
Antes de ao frio pó eu regressar:

Que nessa hora tenham já perdoado
A minh’alma, o meu peito e o meu falar,
Que momentos difíceis hão causado
Quando, em mim, o amor fel estava a amargar.

E ao Céu elevo a voz e atiro ao vento,
Agora, antes do tempo ser já ido,
Que Deus dê muita força e alimento

Aqueles a quem, bruto, eu hei ferido;
Que lhes dê a recompensa no momento,
Aquela que eu não dei enquanto vivo!

E a quem, em vida, amei com muito alento,
Que seja, no momento derradeiro,
Possuído por esse sentimento,
Que, em tempos, ateara o meu braseiro.

Nessa hora se esqueça o meu talento,
Que nunca foi engenho verdadeiro,
Que de tudo se esqueça o pensamento,
Até do amor que foi mais traiçoeiro!

Que a Justiça leal desça dos Céus,
Nessa hora se rasgue a fria tampa
Da tumba, onde descansam os restos meus,

E, que repouse sobre a minha estampa
A sentença que vem da voz de Deus...
— Quão será pesada funérea campa?

2 comentários:

Eduardo Leal disse...

Meu Amigo,

Parece-me bem termos ambos começado pelo fim, até porque sabemos é interessante, uma vez que acredito estarmos, pelo menos, a meio do percurso (mais para um lado ou para outro).

O teu Poema tem a força de... Alexandre Herculano (??!!)

Parece...

Ao analisar os meus cadernos de poesia (que vão dos meus 11 anos até hoje) tenho vindo a desenvolver uma teoria de trazer por casa que irei detalhando ao longo dos próximos tempos, mas que em traços largos se pode descrever como sea nossa história pessoal se pudesse decalcar da história da poesia, nos estilos claro.

E é por isso que fiz quadras populares, poesia "tipo" Bocage, Camões, mais tarde Garrett e por aí fora.

Note-se que não estou a por-me em bicos de pé, estou apenas a falar dos estilos.

Neste teu tão interessantepoema estavas no apogeu da tua era romântica.

Gostei!

Sulista disse...

descoonhecia e estou estupefacta com a veia artístico-poética dos dois amigos, João Lopes e Eduardo Leal...lindo!

...fico à espera de mais :-)
Parabêns!